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Povos indígenas, território e formação de identidade



Os primeiros indícios de ocupação humana no Brasil datam de aproximadamente 10 mil anos atrás. De acordo com pesquisadores, o território brasileiro começou a ser habitado primeiramente na região amazônica e com o passar do tempo, as populações migraram para o centro e então para a costa. Daí o termo povos originários, que se refere às populações que foram as primeiras a viver no Brasil - e seus respectivos descendentes.


Segundo dados publicados pela Funai, em 1500, os povos originários somavam aproximadamente 3 milhões de pessoas, que representavam cerca de 1.000 etnias diferentes. Estimativas feitas por outros pesquisadores sugerem que a população indígena pode ter atingido entre 5 e 7 milhões de pessoas.


Entretanto, desde a ocupação do Brasil pelos europeus, a população indígena tem sofrido um drástico declínio. Em 2010, o censo do IBGE contabilizou 896,9 mil indígenas, de 305 etnias, falantes de 274 línguas. Isso significa que nos últimos 500 anos, mesmo com o crescimento da população brasileira total, houve uma redução de pelo menos 70% da população indígena.



A importância do território

Apesar das diferenças entre línguas e etnias ainda existentes, os povos originários compartilham características em comum: seus modos de vida tradicionais e sua forte ligação com a natureza. Por esse motivo, também são frequentemente chamados de povos tradicionais - nomenclatura que engloba indígenas, ribeirinhos, quilombolas, entre outros.


Povos tradicionais são entendidos como grupos culturalmente diferenciados (e que se reconhecem como tais) por possuírem formas próprias de organização social. Eles ocupam e usam a terra e seus recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, através de práticas e conhecimentos criados pela tradição e transmitidos de geração para geração.


Para as populações tradicionais, o território é um aspecto fundamental da sua identidade, pois é onde se constrói o chamado lugar social. É neste território que eles produzem, trabalham, convivem, se reproduzem e formam suas raízes. Há uma longa e profunda trajetória das famílias com sua terra, afinal, ela não somente é ocupada pela geração atual, mas também a foi por diversas gerações anteriores. Sendo assim, existem diversas dimensões simbólicas, ritos sagrados, fatos e acontecimentos históricos que mantêm viva a memória do grupo, além de ser o local onde seus antepassados estão enterrados.


Logo, o território é um lugar repleto de significados para comunidades tradicionais, contribuindo para moldar suas visões de mundo e seus modos de vida, que são geridos, aprendidos e vivenciados a partir de sistemas de conhecimentos locais. Dessa forma, a terra se torna um componente fundamental na formação da identidade destas comunidades.



Identidade e visão de mundo

A formação da identidade se dá por meio do sentimento de semelhança e pertença a um grupo e de diferença com relação a outros. Ela organiza significados e representa a imagem que uma comunidade tem de si mesma ou que quer possuir. A identidade não é estática, pois está sempre girando em torno de um projeto. Apesar das sociedades tradicionais aparentarem estar em um estágio de estabilidade estrutural, seu conteúdo está em constante fluxo, e com frequência, podemos observar a organização de reações contra tendências globalizantes que impactam seu território.


A coexistência de múltiplas identidades, e consequentemente de diferentes visões de mundo, pode gerar conflito e tensão. O homem branco moderno, majoritariamente, vê o mundo natural como algo à parte do ser humano, um lugar inóspito e não apropriado à nossa sobrevivência. A natureza é tratada meramente por sua utilidade, por seus recursos a serem utilizados para melhorar a qualidade de vida do homem, enquanto sua dimensão sagrada e espiritual é invisibilizada. Essa percepção é brilhantemente criticada pelo filósofo e ativista indígena Ailton Krenak, em algumas de suas obras.


Para ele, a sociedade moderna está presa a uma ideia de progresso e de que a natureza pode ser substituída por aparato técnico, o que enfraquece cada vez mais o nosso elo com o planeta. Vivemos focados em uma realização pessoal através do trabalho, da produção e do consumo de bens materiais, ignorando o sentido de existir e esgotando a possibilidade de preservação da vida na Terra. Na opinião de Krenak, para solucionarmos os problemas ambientais e sociais que nos afligem hoje, precisamos resgatar alguns dos valores e visão de mundo dos povos tradicionais.


Sob a ótica indígena, o mundo físico e espiritual estão interconectados. O valor das coisas, dos recursos e da terra, consiste na existência da própria vida. A natureza é valiosa pois possui valor em si mesma, além de nos fornecer alimento, água e abrigo. A terra é vista como uma mãe que amamenta seu filho. Entre os povos tradicionais, todos têm a convicção e a percepção absoluta de que a vida é intrínseca à natureza, e que por isso é preciso protegê-la.

A sabedoria indígena crê que a floresta também depende dos povos para sobreviver. A riqueza da floresta é resultado da espiritualidade dos povos que nela vivem. E é essa espiritualidade que alimenta as águas, os animais, a floresta e mantém o equilíbrio de toda a teia da vida. Assim, os povos tradicionais e a natureza em seu entorno são vistos como uma só entidade.



Arandu

A concepção indígena de que seres humanos e natureza são partes de um só organismo, inspirou o nome da nossa organização. Ela nasceu com o objetivo de buscar e oferecer soluções para os problemas que a humanidade está enfrentando, com muita vontade de construir um mundo melhor, e de despertar o potencial de cada um de nós. O nome escolhido, Arandu, é original dos povos Kaiowá e Guarani, e significa, dentre várias coisas: ouvir o tempo, conhecer através da experiência de vida e a ideia de que a própria vida é intrínseca à natureza. Preservar a natureza é preservar a nós mesmos.



Para continuar aprendendo:


Ailton Krenak





Ailton Krenak





Gostou de aprender um pouco sobre os povos indígenas brasileiros e quer saber mais sobre o que está acontecendo nos dias de hoje?


Os modos de vida tradicionais estão sendo ameaçados por algumas propostas de lei que estão atualmente sendo analisadas pelo Congresso. Confira abaixo:


Permite a exploração mineral e hídrica dentro de terras indígenas já demarcadas, sem nenhuma salvaguarda.


Dificulta a demarcação de terras indígenas sob a justificativa da “tese do marco temporal”. Se aprovada, populações indígenas só poderão reivindicar terras que já eram ocupadas por meio de posse física antes da promulgação da Constituição (em 05 de outubro de 1988).


Conhecida como PL da Grilagem, este projeto de lei facilita a regularização de títulos de terras públicas que foram ocupadas de maneira ilegal por grileiros. Na prática, ela oferece anistia a grileiros, permitindo que práticas de desmatamento e grilagem continuem impunes, além de aumentar conflitos entre grandes agricultores e pequenos agricultores e populações tradicionais.


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