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As estrelas dentro de nós

É o dia dos corações partidos”, eu ouvi de uma estranha no metrô de Nova York no dia 14 de fevereiro, dia de São Valentim nos Estados Unidos, ou o que seria o nosso dia dos namorados. Nós duas olhávamos para uma menina aos prantos sentada em um dos assentos laranjas do metrô sempre sujo da cidade. Rodeada de casais segurando buquês de flores, uma amiga a consolava: "Você era boa demais pra quem ele se mostrou ser”. Eu senti a dor da menina – e entendi a fala da estranha também. As desilusões amorosas criadas por conexões a princípio tão intensas, mas que ao fundo se mostram frágeis como folhas secas no outono.


Nunca tivemos tantos jeitos de nos conectarmos – mas diferenciar conexões autênticas de um mero telefone sem fio agora parece uma tarefa com a complexidade a nível de teoria quântica. E entre tantas reflexões sobre o assunto, até acabei chegando lá – mas explico mais pra frente.


Mais tarde, eu me encontrei com outra alma abatida nas trincheiras do amor.

“É que eu achei que nós éramos almas gêmeas, sabe?”, eu ouvi da minha amiga enquanto ela chorava com o coração partido. Eu podia ver em cada lágrima a dor exasperada do luto de algo que existia de forma profunda dentro dela – tão profunda que o corpo ainda não conseguia processar como algo tão intenso deixou de existir na vida real. E vinham então as tremedeiras e os soluços entre choros como que para tentar expurgar o sentimento; como se a dor fosse demais para a alma suportar.


É realmente desestabilizante a dor de perder alguém que ainda vive. De criar uma conexão que você pensava ser tão grande com alguém e ver uma tesoura cósmica cortar os laços – da relação, do futuro, de quem você é e seria com aquela pessoa. Como se alguma dimensão paralela de você tivesse parado de existir, morrido junto – e você pudesse sentir essa morte de alguma forma.


E aí é que está – enquanto minha amiga chorava, vi-me refletindo sobre a nossa existência e as conexões inexplicáveis que criamos com seres e coisas ao nosso redor. Como a nossa alma parece clicar com certas pessoas e interesses de uma forma incontrolável. Como certas pessoas vivem uma vida feliz trabalhando com números; outras, com letras. Como alguns de nós parecem ser feitos da mesma magia cósmica que nos atrai aos oceanos das praias ou a terra das montanhas ou a interagir com a vida e outros seres humanos em cidades metropolitanas.


Quantas vezes vemos nossos amigos se apaixonarem por pessoas que nos parecem completamente desinteressantes? Algumas vezes, aquele match faz sentido – outras, nos perguntamos como aquele amigo tão incrível deixou-se envolver e machucar por alguém tão pobre de luz (e atire a primeira pedra quem não foi aquele amigo).


Então comecei a me questionar quem inventou essa ideia de almas gêmeas. Duas almas conectadas… pelo que exatamente? Do que é feita a nossa alma? Quem as divide em corpos distintos?


Há algumas teorias para isso. Eu, particularmente, gosto das que sugerem que a alma é energia – a mesma que criou o universo e todas as coisas. Somos feitos das mesmas partículas que existem no espaço e criam-se, dissipam-se, dividem-se, multiplicam-se, transformam-se.


O anestesista Americano Stuart Hameroff, do Centro de Estudos da Consciência do Arizona, e Roger Penrose, físico de Oxford que criou a teoria sobre o que veio antes do Big Bang, sugeriram uma hipótese para isso. Eles criaram a teoria quântica da consciência, que sugere que as almas existem dentro dos neurônios e células cerebrais, em estruturas chamadas de microtúbulos. São estruturas tão pequenas que se aplicam à física quântica – em leis que sugerem que duas partículas podem até estar em dois lugares ao mesmo tempo. “Quando o coração para de bater, o sangue pára de correr e os microtúbulos perdem seu estado quântico. A informação quântica nos microtúbulos não é destruída, não pode ser destruída. Ela é simplesmente distribuída e dissipada pelo Universo”, explica Hameroff.

Isso sugere que as partículas que formam a nossa alma não morrem, mas se recriam e dissipam-se no universo até se alocarem de novo e darem vida a outras coisas. Talvez a mesma partícula tenha se dividido e agora esteja dando vida a dois corpos diferentes. Poderia ser isso a teoria das almas gêmeas?


Mas se esse é o caso, com tanta energia cósmica por aí, se dividindo, multiplicando, se dissipando e se alocando, de onde tiramos essa ideia de que só haveria um outro ser na Terra com as mesmas partículas que nós? O amor muitas vezes desconhece lógica, mas a atração já a entende melhor – então não faz mais sentido pensar que na verdade temos algumas almas irmãs no mundo para as várias versões de nós ao longo da nossa existência? Quanto peso carregamos ao pensar que temos apenas uma metade nossa perambulando por aí, em um mundo que tanto se transforma, que muda sua população de par a ímpar a cada segundo, que oferece tantas possibilidades de conexões que expandem a nossa alma ao invés de nos fazer reduzi-la à metade de algo nessa incansável busca?


Enquanto muitas vezes nos desfazemos como flores em pétalas de bem-me-quer e mal-me-quer por conexões instáveis e rasas tentando nos encaixar na ideia dessa única metade, esquecemos que na verdade, somos nós que somos únicos. E somos inteiros. Não somos metade ou uma divisão de algo – somos resultado de mudanças e expansão e da magia daquilo que abre espaço no infinito. Vivemos para alimentar a nossa alma, trocar e exponenciar energia com aquilo que interagimos, com aquilo que colhemos ao longo da nossa caminhada – sem nos desfazer por ninguém, mas sim expandindo nossas possibilidades de nos conectar com tudo a cada passo que damos.


Por vezes nossos corações confundem conexão com os nossos desejos mais profundos – e forçamos algo a tornar-se aquilo que queremos que seja; achamos algo ou alguém para suprir certas necessidades de sentir, de sermos aceitos, de pertencer. Insistimos em relações errôneas muitas vezes não por nos conectarmos de fato com aquela pessoa, mas pela necessidade de sentir essa conexão com alguém. Insistimos em carreiras que não nos preenchem ou caminhos que não fazem sentido ao nosso âmago. Quando olhamos para dentro e nos vemos inteiros, entendemos mais do que a nossa alma é feita. O que nos move. O que nos puxa. O que a alma pede.


Quando paramos de buscar fora o que está dentro de nós, entendemos quem somos e o que faz a nossa alma brilhar – e vemos que certas almas não são feitas da mesma luz. Se a nossa alma pode ser feita do mesmo material das estrelas, deveríamos aprender a observar o nosso próprio céu – quantas vezes vemos em outros a nossa alma gêmea quando a alma deles não brilha como a nossa? Como podemos pensar que certas pessoas são o nosso par cósmico quando não compartilhamos da mesma luz? Às vezes achamos que alguém brilha como nós – mas é simplesmente apenas o reflexo da nossa própria luz em um pedaço de escuridão do outro. E nessa de emprestar nossa luz sem receber mais de volta, apagamos partes de nós tentando achar algo que nos complete – quando éramos muito mais inteiros antes. Enfim, a ironia.


Penso que está na hora de pararmos de endeusar relações românticas como a melhor fonte de amor, ou o grande objetivo da vida. Hoje, vejo que vivi grandes amores com amigas que levo para a vida toda. Amigas que souberam cuidar de mim como nenhum namorado. Por que expectativas como a de encontrar essa tal alma gêmea, por exemplo, só vive em amores românticos? Vejo almas irmãs em amigas que me trouxeram uma paz inexplicável, e souberam me guiar para dentro de mim – sem cobrança, sem expectativa. Assim nos conectamos e vivemos histórias incríveis de autoconhecimento, aventuras, descobertas e desafios. Vejo almas irmãs em pessoas que encontrei no meio do caminho e nunca mais vi, mas que me marcaram de forma extremamente profunda. Vi que consigo cuidar e nutrir a minha alma sem amores românticos, mas com um cafuné em uma amiga que chora, em uma risada com a minha irmã no meio da tarde, em um ponto final em um texto que escrevi, no cheiro de um livro, em uma conversa com estranhos, quando pouso em um destino novo, em algo novo que tento aprender.

A grande epidemia, na verdade, é a dessa “síndrome da metade”, como se fôssemos incompletos, e não apenas seres com espaço dentro de nós. Assim como o próprio universo, somos inteiros e estamos aqui apenas para expandir aquilo que somos. Para explorar as várias conexões que a vida oferece. Quando aprendemos para onde orientar a nossa luz, colhemos o melhor dessa troca infinita de energia que a vida tem para oferecer. Criamos conexões com aquilo que realmente faz a nossa alma vibrar, sem a expectativa de pertencer, ou nos encaixarmos, mas de ir abrindo caminhos, descobrindo propósitos e semeando marcas de luz em cada curva da vida.


Hoje, não brinco mais de telefone sem fio. Busco nutrir a minha intuição e escutar o que vem de dentro. Busco ver o papel de cada pessoa na minha vida e deixá-las ir, ficar ou cumprir passagem para me ensinar algo – ou aprender algo comigo. Deixo minha alma ser livre para navegar para aquilo que me atrai e me permite brilhar. E assim, gosto de pensar que em algum lugar neste vasto universo que me criou, algumas estrelas irmãs então brilham junto comigo.



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